Um anjo de olhos azuis

  
  A seguinte história, aconteceu no início do verão de 1988, quando eu tinha eu 14 anos e prestes a completar 15.
  
  Num domingo de manhã à saída da igreja de Alcobertas, onde tinha sido realizada a missa, a minha prima Aida convidou-me para ir com ela e com os pais à praia da Foz do Arelho. Eles iriam seguir viagem imediatamente e por causa disso, eu não teria tempo de passar em casa para vestir um biquíni e trocar de roupa. Então disse-lhe:
  - Gostava muito de ir com vocês, mas não posso... eu nem sequer tenho aqui um biquíni.
  - Não faz mal - respondeu ela - eu tenho um a mais e posso emprestar-te.
  - Está bem, então vou. - Disse eu animada. Afinal, era uma oportunidade que eu não podia perder. Porque, naquela época era raro ir à praia por causa de não ter quem me levasse. 
  - Vou só ver se encontro a minha mãe para lhe dizer que vou contigo. - Disse eu, enquanto olhava à volta para ver se a via.
  - Está bem, eu espero-te aqui. - Respondeu a Aida.
  Nesse domingo, eu vestia um vestido vermelho feito por uma costureira com a qual eu trabalhara como empregada doméstica, naquele que foi o meu primeiro emprego, entre setembro e dezembro do ano anterior. Apesar desse vestido não ser adequado para levar para a praia, eu não me importei com isso e segui viagem com eles na expectativa de um dia de domingo que seria muito mais feliz do que eu imaginara.
  Quando chegámos ao estacionamento da praia, eu e a Aida esperámos que saíssem todos da carrinha, para que eu pudesse vestir o biquíni. Depois, fomos ao encontro dos pais dela, que estavam à nossa espera uns metros mais à frente.
  Seguimos todos juntos até o areal até que, os pais dela escolheram um sítio que consideraram perfeito para montarem os chapéus de sol.  Contudo, eu e a minha prima, em vez de ficarmos ali com eles quisemos ir logo explorar toda a área da praia, principalmente a zona da lagoa. Naquela época, a Aida morava em Lisboa e só vinha à terra natal dos pais de vez em quando. Por isso, seguimos andando pelo areal animadas e colocando todas as nossas conversas em dia. 
  Ao final de algum tempo, decidimos entrar nas águas calmas da lagoa e fomos caminhando lado a lado com a água apenas pelas pernas e pela cintura. Até que, num certo momento, a minha prima avançou um pouco mais para dentro e, subitamente, afundou-se na água. Ao emergir, disse aflita e a esbracejar:
  - Célia, eu não tenho pé... eu perdi o pé! 
  - Não perdeste nada, eu estou aqui perto de ti e tenho a água pela cintura... - Disse eu, julgando que ela estava a brincar. Mas, ao ver que era a sério, gritei-lhe:
  - Estica a tua mão, para eu te puxar! - E dei um passo em frente esticando-lhe a mão. Foi então que senti o chão a faltar-me debaixo dos pés e... Fiquei sem pé também!
  Ficámos as duas aflitas, agarradas uma à outra, e em pânico, acabei por me agarrar a ela, entrelaçando-a com as pernas, fazendo com que ela se afundasse ainda mais e não conseguisse vir à tona. Eu também me afundei, mas de vez em quando, ao emergir, gritava incessantemente:
- SOCORRO! SOCORRO! SOCORRO!
  Foi então que apareceu um rapaz vindo na nossa direção, e no preciso momento em que o vi chegar perto, apesar da aflição, reparei que ele tinha uns grandes e bonitos olhos azuis. 
  Agarrando uma e a outra de cada lado, o rapaz tirou-nos às duas daquele sufoco largando-me assim encontrámos pé, porque, apesar de tudo, eu estava bem. No entanto, ele precisou de ajudar a minha prima a caminhar até ao areal, pois ela estava muito fraca por ter ficado mais tempo debaixo de água. Porém, quando ele a deitou no areal, ela conseguiu recuperar rapidamente, não tendo sido necessário fazer a manobra de reanimação boca-a-boca. Algumas pessoas chegaram perto para ver se estávamos bem, e ao verem que sim, afastaram-se. No entanto, nós queríamos agradecer ao rapaz que acabara de nos salvar e, quando nos virámos para o encontrar, não o vimos em lado nenhum. Ele simplesmente tinha desaparecido! 

  Naquele tempo, havia zonas na lagoa em que o areal tinha muitas depressões, e quando estava encoberto pela maré cheia, não se viam esses grandes desníveis. Por causa disso, ora se estava com água pela cintura, ora se dava um passo em frente e ficava-se sem pé repentinamente. Felizmente esse problema foi resolvido alguns anos mais tarde. Certamente, porque era comum acontecer o que aconteceu comigo e com a Aida.
  Depois de tudo o que aconteceu, nós combinámos não dizer nada aos pais dela, para que eles não sofressem por causa de algo que já tinha terminado e que, por milagre (acredito eu), correu bem. 
  Eu mesma não contei nada aos meus pais quando cheguei a casa. Só muitos anos mais tarde, é que acabei por lhes contar...
  
  Esta história marcou de tal maneira a minha vida até aos dias de hoje, que eu acredito, que nós duas fomos salvas da morte por afogamento, por um anjo com uns lindos olhos azuis! 

Awen /|\

Célia Marques 02/12/24

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