Um túnel na areia do rio

  

  Perto de uma aldeia corria um rio, junto ao qual havia um areal onde se extraía areia para diversas obras nas redondezas. Com o passar do tempo, essa atividade, deu origem a um grande monte de areia. 

  Vivia nessa aldeia uma menina chamada Maria, que adorava ir para lá brincar sempre que os trabalhadores estavam de folga.

  Num sábado de manhã, como já era hábito, Maria pegou no saco onde guardava as pás e os baldes de plástico e perguntou à mãe:

  - Posso ir brincar para o monte de areia do rio.?

  - Sim Maria, podes. Mas tem cuidado, não vás para perto da água! - Advertiu a mãe apesar  de a conseguir ver através da janela da cozinha.

  - Está bem, mãe!

  Quando chegou ao monte de areia, Maria teve vontade de fazer escavações. Pegou na sua pá e começou a escavar um túnel que se tornou tão comprido que, ao espreitar para dentro dele, ficou a imaginar até onde poderia ir dar. Foi então que, nesse instante, ela se viu a caminhar pelo túnel. Talvez tivesse diminuído de tamanho ou talvez o túnel tivesse aumentado... A verdade é que estava dentro dele sem saber onde é que iria parar.

  Maria foi caminhando durante algum tempo, até que, começou a ficar demasiado escuro, pois a luz da entrada já estava a ficar muito distante. Nesse momento, sentiu medo e quase que voltou para trás. No entanto, a curiosidade foi mais forte e, assim, encheu-se de coragem e decidiu continuar o seu caminho. Ajustou os olhos à escuridão e continuou a caminhar, mas desta vez com mais cuidado. Algum tempo depois, avistou uma luz brilhante ao fundo do túnel e acelerou o passo para ver que lugar era aquele a que estava a chegar.

  Quando Maria saiu pelo outro lado, encontrou uma linda praia onde o céu e o mar se fundiam em diferentes tons de azul. Olhou para o sol e viu que ele incidia diretamente para o túnel que ela acabara de atravessar e percebeu que, por causa disso, é que a luz brilhava tanto quando ainda estava dentro do túnel. Ao olhar para o chão, viu que estava descalça e sentiu uma agradável sensação nos pés ao pisar a areia branca e limpa daquela linda praia. Que sensação tão boa! Pensou. 

  Foi caminhando em direção ao mar calmo e ficou ali algum tempo a brincar com as ondas a molharem os seus pés e a senti-los afundarem-se ligeiramente na areia entre cada onda. Respirou fundo e apreciou o som das ondas a bater na areia... Como é bom estar aqui! Pensou feliz.

  Depois, sentiu uma grande vontade de também brincar na areia daquela praia. Parecia até que a areia a estava a chamar: "Vem cá... Brinca comigo, vem construir um castelo!"

   É isso! Pensou Maria. Vou fazer um castelo! Escolheu um lugar onde as ondas não chegavam e pouco a pouco, foi juntando montinhos de areia molhada para a construção das paredes, dos tetos e das torres, da imagem que lhe estava a surgir na mente. 

  Ela brincava sem noção do tempo e completamente absorvida em cada detalhe do castelo. Quando terminou, olhou para o que acabara de construir com grande satisfação! Está lindo! Pensou orgulhosa.

  Fechou os os olhos por um momento e, na sua mente, imaginou que aquele castelo era a sério. Inesperadamente, ouviu o som de cascos a bater no chão... que barulho é este? Pensou. Abriu os olhos e foi então que, com o chiar de um portão que se abria, ela viu um príncipe a sair pelo portão principal montado num cavalo branco e acompanhado pelo seu escudeiro montado num cavalo castanho. Quando o príncipe a viu ali, perguntou-lhe:

  - Quem és tu e o que estás a fazer aqui?

  Maria ficou muito surpreendida, mas mesmo assim, respondeu animada:

  - Olá, eu sou a Maria e vim do outro lado daquele túnel. - disse ela enquanto apontava com o dedo. Depois continuou: 

  - Eu gosto muito de saber o que está do outro lado... Por isso, ao atravessar o túnel, vim parar aqui!

  - Do outro lado de quê? - perguntou o príncipe intrigado e até um pouco irritado. Pois não esperava encontrar uma menina ali e tinha muitas coisas para fazer.

  - Do outro lado de tudo... Do túnel, da serra, da vida...

  - Já percebi. Gostas de conhecer os mistérios das coisas, não é? - disse o príncipe, que começava a achar a menina muito interessante.

  - Sim, é isso mesmo. Já agora, quem és tu e de onde é que apareceste? Eu apenas construí um castelo na areia...

  - Então, vieste parar ao sítio certo! - disse ele com um sorriso que Maria considerou lindo! - Eu sou o príncipe herdeiro desta terra e tu acabaste de chegar ao reino da fantasia!

  - É mesmo?! Uau!!!

  - Sim. A tua imaginação trouxe-te até aqui e pode levar-te até onde tu quiseres... Gostavas de conhecer o castelo por dentro?

  - Sim. Gostava muito!

  - Então, vem comigo.

  O príncipe desceu do cavalo entregando-o ao seu escudeiro e fez sinal para que voltassem a abrir o portão. Logo a seguir mostrou todo o castelo a Maria; o pátio, os salões, a cozinha. - De onde vinha um cheirinho a comida que só podia ser muito saborosa. - Mostrou o trono do rei, todas as alas à volta onde ficavam as cavalariças e onde viviam os trabalhadores. Mostrou-lhe também uma grande cisterna, onde se coletavam as águas para o sustento de todo o reino. Enquanto ele lhe mostrava o castelo, ia explicando como é que se vivia ali e como é que as coisas funcionavam. Explicou-lhe que o rei tinha muitas responsabilidades na gestão de todas as aldeias à volta e que tinha que proteger as pessoas que ali viviam. Por isso, tinham sido construídas umas muralhas à volta do reino. Ela ouvia o príncipe com atenção e observava tudo encantada e até conseguiu imaginar-se a viver ali.

  Entretanto, ele disse-lhe:

- Um dia, se quiseres, eu mostro-te as muralhas e também o lugar onde os soldados treinam para defender o reino, mas agora tenho que ir embora, pois tenho muitos assuntos para tratar no reino do meu pai. - O príncipe montou o cavalo e despediu-se dela. Contudo, ainda acrescentou:

  - Gostei muito de te ter aqui, sempre que quiseres podes voltar!

  - Também gostei muito de estar aqui! - disse ela com entusiasmo. Depois acrescentou: 

  - Eu quero muito voltar mais vezes a este lugar e também quero ver as muralhas e os soldados a treinar. Até breve!

  - Até breve! - Respondeu o príncipe, acenando-lhe enquanto caminhava montado no seu cavalo e indo em direção à ponte levadiça, que entretanto os seus súbditos já começavam a baixar.

  - Não te esqueças de que para voltar só precisas de imaginar! - Gritou ele à distância.

  - Não me vou esquecer! - Respondeu Maria encantada e acenando-lhe também.

  Maria ficou ali a olhar para o príncipe enquanto ele se afastava e pensou para consigo: como é que era possível ter sido ela a construir aquilo tudo, pois só se lembrava de ter feito um pequeno castelo na areia da praia. Como é que de repente estava num castelo de verdade e com todos aqueles pormenores que ela não sabia como tinham sido feitos? Ela só tinha construido o castelo por fora... E de onde é que tinha aparecido aquele príncipe com o seu escudeiro e todas as pessoas que viu no castelo? Será que ele tinha razão e aquilo tudo era fruto da sua própria imaginação? Mas aquilo parecia tão real!

  Foi então que, acordou e percebeu que estava na areia do rio perto da sua casa. Ao seu lado, viu o túnel que tinha construído e, naquele momento, lembrou-se que depois de o ter concluído, sentiu um sono impossível de resistir e adormeceu por breves instantes... Maria olhou mais uma vez para o túnel e, naquele momento, pareceu-lhe ouvir o som das ondas do mar e de cavalos a relinchar. Ela sorriu e voltou para casa, pois estava na hora que a mãe lhe dissera para voltar.


Awen /|\


Célia Marques 25/05/26

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